Cabelo
Pelo menos uma vez na vida todo homem deveria ir a um salão de beleza. Claro, não para fazer as unhas, cutículas e outros tratamentos, mas apenas para observar.
Eu tenho uma superstição besta, sempre corto meu cabelo nas sextas-feiras. Esta tradição vem desde a época do colégio pois era o único dia da semana em que me sobrava tempo. Sempre matava a última aula, então tinha que cumprir com o meu dever capilar antes que a minha avó resolvesse tomar partido achando que a minha cabeleira estava acima do limite tolerável pela sociedade e devastasse tudo com sua imperdoável tesoura mundial. A fim de evitar tamanha vergonha aparecia correndo no barbeiro perto do colégio, o Léo, que era o cortador oficial da família: meu, do meu pai e do meu irmão menor quando conseguia fugir da tesoura da minha avó. Sempre falávamos
dos mesmos assuntos: futebol, colégio, mulheres, carros e todos aqueles papos amistosos na relação barbeiro e escalpelado. Anos passaram e eu parei de cortar o cabelo no Léo, cortava em um salão de Ipanema que a minha namorada na época frequentava. O famoso Jean Louis David, ou Jean Claude Van Dame como eu chamava. O lugar é uma franquia internacional, deve ter umas 5 lojas aqui no Rio sendo 2 em Ipanema, a capital mundial dos coiffers. Por sinal, Ipanema deve ser o lugar com a maior densidade demográfica estética da face da terra. Tem um coiffer a cada esquina, um número maior do que farmácias em Copacabana e livrarias em Buenos Aires, uma coisa impressionante. Pois bem, esta semana mudamos de escritório e o Jean Claude Van Dame que ficava na esquina do antigo prédio acabou ficando longe e eu estava atrasado. Como se tropeça em coiffers naquele bairro resolvi entrar na primeira que aparecesse, tivesse uma cara bacana e um preço razoável. Fui para no tal de Werner.
Para um homem, a primeira impressão que você tem ao entrar em um salão cheio é de que atravessou um portal para uma outra dimensão. São dezenas de mulheres com toalhas na cabeça, descalças, conversando alegremente enquanto funcionárias fazem suas unhas ou passam apressadamente de um lado para o outro. Na mente masculina aquilo é a visão mais próxima do caos. Cheguei no caixa/atendimento e perguntei se poderia cortar meu cabelo. Ela disse que claro, apenas espere um pouco e me ofereceu uma cadeira, água e café. Fui pegar uma revista e a seleção era óbvia: Caras, Chiques e Famosos, Vogue e outras revistas femininas. Peguei uma Caras e fiquei esperando. Passam uns 15 minutos e chega uma menina uniformizada e pergunta o meu nome. Afirmei com a cabeça, ela me disse que se chamava Solange e me encaminhou para a lavagem de cabelo. Diferente da babearia, se lava o cabelo antes e depois do corte. Você senta de costas para uma espécie de pia de lavagem onde colocam uma toalha no seu pescoço para molhar e lavam com shampoo e água morna. Não que no Jean Claude Van Dame não o fizessem, mas é apenas para ilustrar aos demais colegas XY que estejam lendo este texto, para entenderem o processo. Logo depois ela secou os cabelos com uma tolha e pediu para esperar pois estava terminando com um madame logo ali. Neste momento eu parei para analisar o local. Patricinhas adolescentes ao meu lado comentando sobre a festa mais tarde, uma senhora conversando com a menina que lhe fazia as unhas sobre a mulher do seu filho nos EUA, duas amigas discutindo o namoro, uma perua passando com um suco de tangerina nas mãos, enfim, aquilo era um evento, quase uma festa. Quando nós homens vamos ao barbeiro, estamos indo cumprir um dever cívico e higiênico. O objetivo é entrar e sair o quanto antes. No caso feminino o salão é quase uma segunda casa. É um templo de futilidades isolado do mundo masculino onde podem conversar e discutir a vomntade. Suas manicures se tornam confidentes e cúmplices, quase uma sessão de análise semanal. Fiquei imaginando se amizades fortes não se formam dentro daquele perímetro estético. Se trocam presentes no Natal, se falam fora do salão ou a relação é estritamente profissional. Dez minutos depois a Solange volta e seguimos para a cadeira. Ela me pergunta como eu queria o cabelo e eu expliquei - "acho que não dá para inovar muito este cabelo, pode deixar igual, só aparar e deixar um pouco mais curto". Ela riu e começou o desbaste. Ficamos conversando como sempre amenidades: se eu era descendente de japoneses, ela disse que adorava japoneses, no que trabalhava, que meu cabelo espetava se cortasse muito curto, que adorava cabelo assim, se era a primeira vez que eu cortava lá etc etc até mesmo que ela achava internet muito legal. Em 20 minutos estava tudo concluído, escutei que tinha uma senhora há 3 horas fazendo um treco lá, olho no espelho e valido o serviço. Pago e dou uma gorjeta para a Solange, afinal não sou pão-duro e sei que boa parte do seu salário vem daí. Saí do salão e voltei para o mundo normal, com o pescoço ainda pinicando um pouco por causa de alguns fios teimosos que se esconderam.
O cabelo ficou bacana, mas nada diferente do corte normal. Talvez porque somos insensíveis e não percebemos os pequenos detalhes. Para mim foi apenas um corte caro mas diferente de cortar no Léo valeu muito pela experiência de aprender um pouco mais do universo feminino.
posted by Hiro at 22:19
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