Echos do passado
Para variar, estava atrasado. Saí cortando todos os carros na Lagoa. Antes mesmo de sair do Rebouças ligo pelo celular pedindo para todos descerem. Desvio de um carro estacionando, canto pneu na curva em frente ao Sion, quase sou pego por dois carros de surpresa cruzando a pista e por pouco não viro sanduiche entre dois ônibus. Faço Leblon-Laranjeiras em exatos 8 minutos. Meu recorde. Chego ao prédio da Gabi e em um minuto saimos com o Michel para buscar a última passageira, a Dani. Liga pro celular dela, nada, os telefones de casa ocupados. Cadê a Dani? Caceta, quase dez horas, o show começa em meia hora e eu ainda nem tenho os ingressos. Chegamos no Flamengo e paramos na frente do prédio dela. Interfone. Beleza, ela está descendo. Boa notícia, a amiga dela não vai poder ir então temos um ingresso sobrando. Todos a bordo agora faltam "apenas" 35 kilometros até o ATL HAll. Trânsito calmo, nenhum engarrafamento e as autopistas americanas da Barra ajudam. Faltam dez minutos para o show começar. Onde fica a assessoria para pegar as credenciais e ingressos para imprensa? Ok, achamos e entramos na fila para a revista. Ufff.
Uma vez dentro do ATL Hall e com a adrenalina sendo diluída aos poucos reparo nas mudanças e reformas feitas desde o falecido Metropolitan. Caso você não saiba, a antiga casa de shows do Ricardo Amaral, o Metropolitan, foi vendido para a ATL Telefonia. Na verdade o nome e a marca foram afgragados além de uma reforma estrutural que tirou o cheiro de mofo dos carpetes e deixou o local com cara de cinema multiplex. Na pista ficamos de frente ao palco, na verdade colado ao palco o que me fez quase ter pena de quem pagou o dobro pelas cadeiras que ficavam exatamente ao fundo da platéia com uma visão bem inferior a nossa. Como não estava lotado conseguimos ficar a menos de 5 metros da banda e acredite, ainda tinha espaço para dançar.
O show em sí foi burocrático. Seguiu o playlist, mas não na ordem dada no post abaixo. Ian e sua turma queimaram logo os cartuchos com seus hits : "Lips Like Sugar" na abertura levantou o público e no meio do show veio "Bring On the Dancing Horses" que levantou quem estava de braços cruzados como eu. O palco era uma simplicidade apenas com efeitos de luz e fumaça dando um aspecto enevoado e soturno ao ambiente. A propósito, foi engraçado rever em plena Barra da Tijuca, góticos, darks e morcegos que eu não observava há séculos. Todos devem ter saído da cripta para esguelar quase como um mantra as letras do Echo. A catarse veio então com "Killing Moon" o clássico definitivo do ETB. Will Sergeant fez alguns marmanjos quase chorarem, mesmo errando em alguns trechos da música. Na verdade, eles poderiam abaixar as calças e mostrar aquelas bundas brancas inglesas que o público ia aplaudir de pé e pedir bis. Ian MacCulloch falava com aquele inglês incompreensível, me lembrou muito o Ozzy, tomava caipira, discursava aquele papo de turista no Rio, enrolava toalhas suadas e chutava para a platéia que degladiava como leões pela carne por um pedaço de pano ensebado. Ah! E como fumava. A banda com certeza deve ser patrocinada por uma compania de cigarros visto a quantidade de tabaco inalada e expirada. Ian inclusive tacou mais alguns cigarros e baganas aos fiéis súditos. Tá certo, ele ainda continua com uma pusta voz, mas já detonada com os vários anos de uso, abuso e erosão das interpéries naturais.
Ao meu ver a banda tem um problema grave, ainda continua no anos 80. O visual não mudou em nada, Ian e Sargeant parecem que foram criogenados e acordaram agora, com as mesmas roupas inclusive. O show teve alguma variação em relação as versões originais de estúdio, mas poucas ao meu ver. Foi um show para fans, que queriam ver isso mesmo, o velho Echo do passado mesmo com apenas dois membros da formação original. Quem foi esperando um repeteco do hypado e tão aclamado show de 87 acabou se decepcionando. Aquele que foi considerado uma das melhores bandas de "cover" do mundo é hoje uma sombra dela mesma. Na verdade, um cover dela mesma.
posted by Hiro at 04:11
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