segunda-feira, maio 20, 2002

O Rock Velho e Rabugento
"O rock anda muito associado ao esterótipo do moleque de 15 anos que se veste de preto e quer tirar onda com o colega da escola, que se diz mais macho porque escuta um som mais pesadinho"

"Bandas como Limp Bizkit e Korn insistem neste lado de auto-afirmação para os jovens complexados e deprimidos."

- Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante em matéria na revista Frente
Eu gosto de música, boa música, independente do estilo ou gênero. Eu gosto de rock, sempre gostei.

O rock funciona como uma válvula de escape, de certa forma é contato que você mantém com a sua adolescência e o meu elo de ligação com a juventude. Algumas vezes, porém, me sinto velho e rabugento por isso.

Hoje tenho 28 anos, sou empresário, tenho uma empresa capitalizada em 2,2 milhões de reais ( atenção sequestradores : não quer dizer que eu tenha esta grana, muito pelo contrário ), passo o dia revisando números, layouts, projetos, eventuais investidores, como alcançaremos as metas deste mês e traçando um planejamento estratégico para os próximos 5/10 anos. Tenho responsabilidades.

É engraçado ver a molecada se esguelando nos shows. Para eles não existe a responsabilidade, não existe o amanhã, só a rebeldia, o momento e os hormônios. O "perrengue" é consequência, faz parte do aventura, mas depois de 10 anos você já não aguenta mais.

Sinceramente não tenho mais saco para enfrentar um show para dez mil pessoas, não conseguir um taxi ou ficar se acotovelando na fila de entrada. Prefiro pagar um pouco mais caro e não passar pelas dificuldades e precariedades. Pago setenta reais para ver o Vernon Reid no Mistura Fina tocar em um palco a 3 metros da minha mesa com uma platéia restrita para 50 pessoas. É mais caro? É elitista? Infelizmente sim. Simplesmente por que não temos um esquema de shows com estacionamento, uma infra-estrutura planejada e civilizada neste país, salvo algumas exceções.

Além disso, com o passar dos anos você descobre que não existe apenas o rock consumista e descartável das FMs, que existe coisa boa por aí. Que aquela música de velho que tanto criticavamos passa muito longe de Ray Coniff e similares. Que antes do Rock'n'Roll existia o jazz, o blues, o samba, os clássicos entre outros gêneros musicais. Seu horizonte expande. Não dá mais para bancar o garotão ou o moderninho metido a jovem correndo o risco de soar como o patético Tio Sukita. Ser jovem é uma questão de espírito, não de estilo ou mesmo de tentar esconder o medo da idade.

O mercado do rock é e sempre foi jovem/adolescente. A minha geração, na faixa dos 30 anos porém, foi criada a base dele e ainda se identifica muito com o estilo mas será que ainda aguenta? Iniciativas como o Free Jazz e alguns eventos de música eletrônica dão um banho em termos de civilidade e público. Se bem que, ontem no Armazem 6, durante a apresentação do Kid Loco, foi um desfile de "pescoçudos", "playboys" e "cachorras", esta combinação turbinada com alcool sempre dá no mesmo resultado, brigas e confusão.

Rezo pelo dia em que poderei ir a um show de primeiro mundo aqui no Brasil com estacionamento para todos, um atendimento exemplar, banheiros limpos e na medida certa. Já percebeu que todo show o número de mictórios e vasos sempre é insuficiente e por isso aquilo vira uma latrina?

Acho que estou ficando velho e rabugento, ou, me toquei de que cresci.

posted by at
:: 0 comments