terça-feira, outubro 16, 2001

Ver Deus

No dia seguinte foi a vez de ver deus (em minusculas mesmo), pelo menos assim Eric Clapton foi chamado um belo dia em um muro de Londres. O show foi bacana, meio paradão apenas com alguma empolgação nos hits ("Cocaine", "Sunshine of your Love", "Wonderfull Tonight" e a melosa "Tears in Heaven" por exemplo) sinceramente esperava mais energia do Tio Clapton. Ok Ok... Ele não é o mesmo dos tempos do Yarbirds ou Cream. O show foi meio burocrático mas bem objetivo e claro. Milagrosamente começou no horário, a abertura foi do Frejat (quaaaaaaaaaa!) que eu fiz questão de não assistir e assim que saímos do taxi na praça da Apoteose começamos a ouvir os primeiros acordes da guitarra.

Muvuca desgraçada fomos seguindo a turba até os minúsculos portões de entrada. O Tio Clapton para variar resolveu mudar a posição do palco que sempre fica junto ao arco ao final da passarela do samba, apenas para tocar vendo o Cristo. Tudo bem... Tudo bem... O cara é deus né? Onipotente e coisa e tal. Pois bem... Passado o aperto chega a fila de inspeção, se eu estivesse com uma big Coke cheia de Anthrax passaria fácil na revista. Dois tapinhas do lado, dois na perna aquela patolada clássica e te mandam passar. Lá dentro aquele mar de pessoas, arquibancadas cheias e Apoteose lotada! Bacana foi um amigo meu cominicando a sua posição : "Estamos na arqubancada da esquerda! É fácil de achar!". Sei... sei...

Levando em conta que cada ingresso custou 50 contos (em SP chegava até 300) imagine quanto saiu o show? O palco, pelo menos o que pude ver, era bem espartano. Nada de pirotecnias a lá bandas farofa tão pouco grandes efeitos especiais. Apenas Tio Clapton, um banquinho e um violão. Se cantasse mais baixo e reclamasse do ar-condicionado eu gritaria João Gilberto is God!

Conseguimos uma ilha de tranquilidade logo atrás da torre principal na pista. Dalí mal dava para se ver o palco mas tinha espaço a beça além dos dois telões que preenchiam as laterais. Com sede e para entrar na onda do show resolvi beber uma cerveja. Do lado de fora tinha comprado uma latinha por R$1,50, mas como era proibido entrar com ela dentro da Apoteose (que nome é esse né?) bebi o resto e taquei a lata na cabeça de um moleque transeunte qualquer. O bar ficava longe pacas de onde estavamos e na hora passou um carinha com um isopor na cabeça gritando Skol. "Me vê uma por favor? Quanto está? " "Quatro reau dotô!" "O QUÊ???" Quatro reias por uma lata de Skol é um ato terrorista! O terror! Mandei o cara pastar e continuei vendo o show comendo meu biscoito Globo de um real. Bateu a sede de novo, mas o pessoal da TV Zero (galera gente boa com quem fui) comprou a cerveja e me deram pelo menos umas 3 latas. Estou em dívida etílica com os caras. Duas horas depois como todo bom inglês Tio Clapton termina o show na hora exata, novamente sem atrasos.

A saída foi um caos para variar. Os "Pê-ême" coçando suas salientes barrigas e a prefeitura por considerar este show como de médio porte não organizou ou planejou nada para escoar o tráfego, ou mesmo colocou linhas adicionais de ônibus para a romaria de fans cansados. O resultado, não havia como sair dalí a não ser a pé. Isso em pleno Catumbi a meia-noite ao lado de algumas favelas bacanas. Todos os taxis já chegavam cheios, e em certos momentos o Catumbi se tornou uma NY, ruas cheias de taxis e dondocas brigando pelo transporte. Resolvemos cruzar o túnel Santa Bárbara para sair em no mundo civilizado de Laranjeiras. Depois de caminhar uns 500 metros e respirar bastante gás carbônico uma trupe de "pôliças" pede para aquela fila indiana de pelos menos 400 pessoas voltarem pois o caminho estava proibido etc e tal. Por que os caras simplesmente não fizeram isso na porta do túnel? Sadismo eu acho. Pegamos um taxi na confusão e então para o solar da produtora Botafogo. Dalí o pessoal já querendo engrenar para a quadra da Mangueira. Eu sem saco resolvi ir comer uma pizza na Cobal do Leblon. E claro, deus foi dançar com as mulatas da Mangueira, como todo bom gringo na Cidade Maravilhosa.

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